quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Televisões criticam TDT portuguesa (act.)

Como se provas faltassem que a introdução da Televisão Digital Terrestre em Portugal é uma das maiores trapalhadas de que há memória, RTP, SIC e TVI comprovaram ontem, mais uma vez, que o Estado não pode e não deve continuar a assumir uma atitude passiva em matéria de TDT.

Durante o 21.º congresso promovido pela Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações, as televisões criticaram o modelo da Televisão Digital Terrestre portuguesa. Creio que se a hipocrisia dos responsáveis das televisões pagasse imposto, boa parte do défice público ficava saldado! Senão veja-se:

Relativamente ao Canal HD, Francisco Pinto Balsemão (dono da SIC), que foi quem propôs o canal(!), considera que “tal canal é difícil de concretizar”. E o representante da televisão pública disse que o canal não tem modelo de negócio! O dono da SIC afirmou ainda que a entrada da TDT, actualmente, "faz menos sentido", quando se assiste à expansão da televisão paga!

Ou seja, oferece-se aos portugueses uma televisão digital terrestre das mais pobres do mundo, sem praticamente qualquer atractivo e depois critica-se a introduçao da TDT por a televisão paga estar em expansão, "roubando" telespectadores à televisão em canal aberto!

Miguel Pais do Amaral, presidente da Media Capital (dona da TVI), afirmou que a introdução da TDT em Portugal foi “uma oportunidade perdida” para as televisões generalistas, que podiam ter aumentado a oferta com o lançamento de outros canais em aberto ou com estações pagas!

Ora estes senhores através de posição conjunta da CPMCS ainda há poucos meses atrás afirmaram duvidar da viabilidade de mais canais em sinal aberto na TDT!

Como todos podem comprovar, os “donos” das televisões portuguesas mudam de opinião com muita facilidade. Consoante sopra o vento!

O presidente da Media Capital disse ainda que “existe um total conflito de interesses em entregar a Televisão Digital Terrestre a uma empresa que é a última interessada em garantir conteúdos interessantes no serviço, porque tem uma plataforma concorrente, que é o Meo”.

É evidente há muito tempo que é do interesse da PT que a TDT não tenha sucesso. Mas a origem do problema remonta à fase dos concursos TDT, quando a PT "eliminou" possíveis concorrentes (entre os quais esteve a Media Capital) sem qualquer intervenção das autoridades reguladoras. Mesmo assim, a introdução da TDT em Portugal poderia ter corrido satisfatoriamente, caso tivéssemos uma entidade verdadeiramente reguladora que tivesse acautelado devidamente os interesses do país. O que todos podem comprovar é que a entidade supostamente reguladora basicamente não tem feito outra coisa senão defender os interesses da PT, tendo inclusivamente recuado relativamente a deliberações suas. Veja-se, por exemplo, a questão da TDT paga, do cumprimento do plano de cobertura ou a ausência de divulgação e informação sobre TDT nas lojas da PT. E veja-se também a prestação do presidente da ANACOM na audição Parlamentar de 20/09/2011. A PT ter ficado com a exploração da TDT não foi propriamente um erro em si mesmo. O grande problema deve-se ao facto das entidades oficiais terem abdicado da sua função reguladora, mais parecendo que recebem ordens da PT.

Continua-se a falar em Alta Definição e nas grandes superfícies metade dos receptores TDT à venda não a suporta, como tenho vindo a alertar. O regulador reuniu com os responsáveis das grandes superfícies mas, aparentemente, apenas para os convencer a terem as prateleiras cheias de equipamentos! Será que vamos assistir à repetição do que se passou relativamente ao MPEG-4, em que o regulador demorou longos meses a “avisar” o público (através de uma mensagem no seu site) para a questão da incompatibilidade?

Continua portanto a gincana verbal. Fala-se, fala-se e não se diz nada de substancial, de construtivo. Não se regula, nem se tomam medidas para dar ao país uma Televisão Digital Terrestre (que já foi designada Televisão Digital para Todos), digna de um país europeu, moderno e civilizado. As televisões têm estado a jogar um jogo arriscado, e daqui a poucos meses a parada pode subir. O problema dos jogos é que para uns ganharem outros têm que perder.

Nota: peço desculpa pelo uso excessivo de pontos de exclamação, mas não há como evitar.

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18 comentários:

Pedro Viana disse...

Zeinal Bava
"As nossas lojas não são o sítio certo para procurarem informação sobre TDT"

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=521833 que giro... ia jurar que para pedir informações e comprar o kit DTH temos que ir exclusivamente a lojas PT...

Anónimo disse...

acho que a tdt devia ter rtp memoria , informaçao e sic mulher

Yagi disse...

Esta história já vem desde Maio, quando publiquei a notícia no blogue, antes da DECO. Já tinha publicado a informação seguinte em Setembro, mas aqui vai novamente.

A ANACOM pediu à PT que faculta-se informação sobre TDT nas suas lojas, mas a PT pelos vistos recusou e a ANACOM deu o dito por não dito. O próprio presidente da ANACOM afirmou na audição parlamentar que a PT não estava obrigada a prestar informações sobre TDT.

Este é um extrato da deliberação da ANACOM emitida antes da audição parlamentar:

«Tendo sido verificadas algumas deficiências na informação disponibilizada pela PT Comunicações, S. A. relativamente à atribuição de subsídio à aquisição de equipamentos de recepção de emissões TDT por parte de cidadãos com necessidades especiais, grupos populacionais mais desfavorecidos e instituições de comprovada valia social, bem como à comparticipação em equipamentos e respectiva instalação nas zonas abrangidas por meios de cobertura complementar (DTH), em 26 de Maio de 2011 o ICP-ANACOM determinou à referida empresa que:

“1. Disponibilize, de modo imediato, nos diversos meios de promoção e informação sobre TDT – nomeadamente, no portal de informação web TDT, nas lojas PT e no Contact Center –, informação clara, rigorosa e completa consonante com as obrigações acima referidas, passando a referir expressamente:
(a) os casos de subsidiação à aquisição de equipamentos por parte de cidadãos com necessidades especiais, grupos populacionais mais desfavorecidos e instituições de comprovada valia social, indicando (i) os valores aplicáveis, (ii) os utilizadores elegíveis e (iii) os procedimentos tendentes a obter a subsidiação; e
(b) a existência de comparticipação na aquisição dos equipamentos e nas instalações necessárias à recepção por meios complementares de TDT (DTH), indicando (i) os respectivos valores, (ii) os utilizadores elegíveis e (iii) os procedimentos tendentes a obter a comparticipação.
... »

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Pedro Viana disse...

http://www.youtube.com/watch?v=t8LJYQkmohk a ZON volta a atacar.

mas não foi por isto que a ANACOM condenou publicamente o que a ZON fez em Maio em Alenquer, e até a levou a dizer que ia começar a aplicar multas se detectasse situações destas? Parece que afinal andam a dormir... ou então de um momento para o outro passou a ser legal...

ps: não há a possibilidade de criar algo para o topo da página que avise quando posts antigos são actualizados com nova informação?

Luis disse...

Boa boa boa, vamos ver se ANACOM dá uma BOA multa a zon!

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=t8LJYQkmohk#!

Pedro Viana disse...

http://www.zon.pt/tdt.aspx

esqueci-me de acrescentar que esta página voltou.

Yagi disse...

A publicidade da ZON na TV é censurável por vários motivos:

1. O sinal dos 4 canais não vai mudar em Janeiro.

O sinal vai começar a mudar em Janeiro (se o inicio do switch-off não for adiado) apenas em algumas zonas do litoral.

2. Se mudar para a ZON não vai poupar, vai GASTAR. Vai ter que pagar 9,99/mês para continuar a vêr os 4 canais que pode continuar a receber através da TDT de forma gratuita, só pagando o custo da adaptação p/ a TDT.

3. Muito provavelmente vai vêr os 4 canais em piores condições técnicas do que recebendo através da TDT.

Má ZON... muito má ZON!
Veremos o que diz a ANACOM...

Post sobre PUBLICIDADE ENGANADORA

José Santos disse...

Sobre o canal HD:

Os descodificadores mais baratos não descodificam o canal HD para formato HD, mas não descodificarão para o para tamanho corrente?

Quem tem uma TV modesta com estes descodificadores consegue ou não ver o canal HD no formato standard?

Yagi disse...

Independentemente dos descodificadores serem "caros" ou "baratos" o que vale são as especificações técnicas. Os descodificadores que suportam apenas canais em definição Standard (SD ou DS), NÃO conseguem processar o sinal e não permitem vêr canais HD em HD ou em SD!

José Santos disse...

Yagi, Obrigado!

Já agora, há alguma forma de testar realmente se um descodificador funciona ou não com canais HD, dado que o nosso único canal HD não está a emitir?
(É que pode estar a ser vendido gato por lebre).

Yagi disse...

Quando os receptores não suportam emissões HD ao sintonizar o canal normalmente exibem uma mensagem. A única forma de testar verdadeiramente é sintonizar uma emissão Full HD. Como critiquei há bastante tempo, nem uma emissão teste ou mira técnica é transmitida, o que nos dificulta a vida.

Anónimo disse...

Não me queria pôr a dar ideias, mas não acham que aquele canal HD "fantasma" está ali mesmo a jeito para a pirataria? Se mais ninguém o quer...

Yagi disse...

Relativamente à "sugestão" dada para o espaço do Canal HD. Para além das óbvias implicações legais, técnicamente tal "solução" não é viável. O canal não é emitido "autónomamente", faz parte de um MUX, logo não é possivel ocupar simplesmente esse espectro com uma emissão autónoma. Seria necessário remultiplexar todos os programas do MUX.

Anónimo disse...

Damn it! ...Bons velhos tempos, os 80s ;-)

Yagi disse...

Sim, bons tempos os 80's... Mas agora, com o DVB-T, bastam alguns Watts para emitir com excelente qualidade para uma área de vários Km's. Mas eu também não quero dar ideias a ninguém ;-) Há que respeitar a lei.

pedro disse...

Ainda me recordo de ouvir falar das famosas "sessões da garganta funda" que emitiam a partir da Areosa para o grande Porto (creio que às Sextas à noite). Mas na região de Santo Tirso, era o próprio presidente da câmara que patrocinava a instalação de retransmissores no Monte de Nª Srª da Assunção. Estávamos nos primórdios das emissões por satélite e havia a convicção de que aquilo devia estar disponível não apenas para os mais ricos (as parabólicas eram caríssimas nessa altura). Vi muitos filmes sem legendas quando ainda mal dominava o inglês (era no canal "Premiere"). Depois havia o "Music Box" (espécie de MTv) e os canais espanhóis (TVEs e TVG), entre outros. Quando familiares meus da capital vinham visitar o primo "saloio" da província, ficavam espantados (e contentes;) com a quantidade de canais que tínhamos. E também tinha mais jogos para o Spectrum do que eles! Bons tempos, de facto. Estava-se no início de uma revolução mediática e andava tudo a apalpar terreno e a experimentar coisas. O boom das rádios piratas surgiria pouco depois...

Anónimo disse...

Pôr a raposa a tomar conta das galinhas é sempre um erro.

(quote: "A PT ter ficado com a exploração da TDT não foi propriamente um erro em si mesmo. O grande problema deve-se ao facto das entidades oficiais terem abdicado da sua função reguladora, mais parecendo que recebem ordens da PT.")

Por outro lado, se concordo que "há que respeitar a lei", não vejo com maus olhos, ainda assim, o recurso a formas mais subversivas de intervir, porque o processo já vem previamente subvertido pelos que têm o comando das coisas. A mensagem que estão a passar às populações é: "É permitido subverter". Em democracia, se só os poderosos podem subverter as regras do jogo, então temos uma democracia manca.

Yagi disse...

Nos anos 80 as emissões "piratas" aconteciam em vários pontos do país. Na zona de Aveiro também se fazia a retransmissão de sinal satélite. Arrancaram também alguns canais de TV local que chegaram a ser muito populares entre a população, mas que a ANACOM tratou rapidamente de silênciar.

Em Portugal, para os "fracos" a lei è rápida e implacável, mas os poderosos fazem o que bem querem. E com o que está a acontecer com a TDT, como já afirmei, muito provavelmente vamos continuar sem TV regional ou local durante muitos anos.