Mostrar mensagens com a etiqueta digital. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta digital. Mostrar todas as mensagens

sábado, 9 de maio de 2026

Portugal não terá Rádio Digital DAB+

Portugal ficará de fora da rádio digital DAB+, já adotada por quase todos os países da Europa, vários países Africanos, Ásia, Austrália e Nova Zelândia. É o que se pode deduzir após a apresentação esta semana do PTRR onde foram apresentadas várias medidas de apoio à rádio que tornaram ainda mais evidente que o Governo PSD decidiu contrariar a Europa e não adotar o sistema DAB+. 

Infelizmente esta decisão era esperada na sequência da não materialização dos testes DAB+ anunciados mas nunca concretizados, como havíamos já comentado. Portugal (com este Governo) não terá rádio digital.

A rádio digital DAB+ é um sistema de radiodifusão de acesso livre e gratuito para o ouvinte (não tem custos de utilização) que apresenta várias vantagens relativamente a outras formas de ouvir rádio. Por exemplo, relativamente ao FM, maior qualidade de som com menos interferências, possibilidade de exibir imagens (capa dos discos, slide shows, etc.), guia de programação, etc. Recordo que em resposta ao blogue TDT em Portugal a ANACOM confirmou que a capacidade do FM estava esgotada e o DAB+ poderia trazer benefícios para a atividade de rádio. 

Países com emissões de rádio digital DAB+

Como tenho divulgado e tentado sensibilizar o Governo e a ANACOM, o DAB+ apresenta uma importante mais-valia, pois através da funcionalidade Automatic Safety Alert (ASA), pode-se de forma automática e imediata enviar alertas à população (para todo país, região ou zona especifica) ou ativar um canal rádio de emergência (sem necessidade de qualquer intervenção por parte do cidadão) e desta forma prestar informação à população via áudio e texto. O DAB+ apresenta ainda a vantagem de consumir muito menos energia elétrica do que a rádio analógica (FM e AM) o que se torna muitíssimo importante em situações de emergência, aumentando a resiliência dos emissores e da rede. Por esses motivos vários países já adotaram ou estão em processo de adotar o sistema ASA. Foi pois com surpresa e grande deceção que tomei conhecimento que o Governo não só não irá apoiar a adoção do sistema Europeu DAB+ mas irá investir no sistema Americano SAME (Specific Area Message Encoding), menos funcional e com diversas desvantagens relativamente ao ASA. As desvantagens são inúmeras dais quais destaco:
 
Enquanto o sistema ASA utiliza a rede de emissores da rádio digital DAB+, o sistema SAME necessita de uma rede de emissores dedicada com dimensão semelhante à do DAB+ para difundir unicamente os sinais de alerta. 
 
Como o sistema ASA é uma funcionalidade da rádio digital DAB+, já existem vários recetores compatíveis com o sistema ASA e a preços acessíveis. Na Europa vários países já adotaram o sistema ASA e nenhum adotou o sistema SAME e não são comercializados rádios compatíveis com o sistema SAME.
 
Temo pois que este investimento se torne num novo SIRESP. Um desastre! 

Recordamos que em Portugal, de 1998 a 2011 funcionou o sistema DAB, que precedeu o DAB+, mas menos eficiente e com menos funcionalidades. Em Portugal a adesão à rádio digital DAB falhou devido a vários fatores e a erros graves cometidos na introdução desta nova tecnologia. Um dos principais motivos do insucesso deveu-se à falta de recetores compatíveis e ao seu preço altíssimo (na ordem das centenas de euros). Na altura, apenas algumas viaturas topo de gama vinham equipadas com recetores DAB. O número de estações de rádio disponibilizadas era muito reduzida, maioritariamente rádios públicas e a oferta era essencialmente a mesma do FM. E finalmente a divulgação e promoção da rádio DAB foi inexistente. Teve um custo total de 11,5 milhões de Euros. Com custos mas sem ouvintes, em Portugal o DAB foi encerrado em 2011.

No entanto, de há vários anos para cá a rádio digital teve um forte renascimento com o DAB+, com as suas significativas melhorias e a disponibilidade de rádios e auto-rádios a preços acessíveis. Desde Dezembro de 2020 todos os veículos automóveis novos comercializados na UE trazem obrigatoriamente um auto-radio compatível com o sistema DAB+.  

Mas a história repete-se. Infelizmente, para os gestores das rádios portuguesas e para o Governo o futuro da rádio está no streaming e não na radiodifusão. Nem as fraquezas reveladas pelas redes móveis durante o apagão de 2025 ou a tempestade Kristin parecem ter servido de lição. Tal como sucedeu com o fracasso e eminente fim da TDT, a médio prazo o ouvinte terá que pagar para escutar as suas rádios favoritas. Apesar do DAB+ ter custos de funcionamento muito inferiores ao FM, as rádios nacionais apostam unicamente no streaming, tecnologia que praticamente não tem custos para elas. Já o ouvinte terá que pagar o custo do acesso à Internet que em Portugal não é barato.

Importa no entanto denunciar que a aposta no digital online é por vezes fundamentada em premissas falsas, como foi o caso da recente noticia a propósito da entrada das rádios da RTP, BAUER e Renascença na plataforma de streaming RadioPlayer. Segundo a RTP:

Ao integrar a Radioplayer (...) garantimos que os cidadãos portugueses continuarão a ter acesso gratuito, simples e fiável à rádio (...).

Nada nesta afirmação é verdadeiro. Vejamos:

  • O acesso não é gratuito, é pago. É necessário ter acesso à Internet, móvel ou fixa.
  • O acesso não é simples, pelo menos não tão simples como o acesso através da rádio (FM ou DAB+).
  • E também não é fiável. Para além das dificuldades de acesso ao sinal de Internet móvel em muitos locais do país, muito utilizadores das apps queixam-se de vários problemas e dão-lhes avaliações baixas:

RadioPlayer - Pesquisa Google
Avaliações RadioPlayer - Pesquisa Google 02/05/2026


 

RadioPlayer - Avaliação de utilizadores
Avaliações RadioPlayer - Google Play Store 02/05/2026
 

Rayo app - pesquisa Goggle 02/05/2026
Avaliações Rayo app - pesquisa Goggle 02/05/2026

Rayo app - Goggle Play 02/05/2026
Avaliações Rayo app - Goggle Play 02/05/2026

A rádio digital pode funcionar bem em Portugal, como funciona em tantos outros países. Em Portugal as principais (senão todas) rádios privadas, opõem-se à adoção da rádio digital. Mas recordo que na maioria dos países a adoção da rádio digital DAB+ tem sido liderada e impulsionada pelos respetivos serviços públicos com mais-valias evidentes para os ouvintes, as rádios e os Estados. Mas infelizmente, por motivos ideológicos o atual Governo não é a favor da melhoria do serviço público de rádio e por isso a rádio pública portuguesa, ao contrário das suas congéneres Europeias não investe no DAB+. Há até claras evidências que se está a tentar esconder dos cidadãos as vantagens do DAB+ e o crescente isolamento de Portugal na Europa.

É no mínimo lamentável que a RTP, que desempenhou um papel fundamental no fracasso da Televisão Digital Terrestre esteja agora também a contribuir para o fim da rádio. Não investir no DAB+ representa uma perda para o país!

Sou da opinião que a aposta na rádio online não deve impedir o investimento na rádio digital. Os gestores das rádios devem disponibiliza-las em todas as plataformas, incluindo o DAB+. Mas em Portugal tais gestores não estão apenas a acompanhar as tendências de escuta da rádio, eles estão a condicionar a escolha dos ouvintes!

Mais sobre a rádio digital DAB+ no Blogue DAB+ Rádio Digital em Portugal

Relacionado: 

Governo desistiu da rádio digital?
O DAB+ e a Proteção Civil
Contributo para o Plano de Atividades ANACOM 2026-2028
Contrato do Serviço Público de Rádio e Televisão (contributo)
Blogue pede papel mais ativo ao regulador

 

sábado, 3 de maio de 2025

DAB+ - A rádio digital terá nova oportunidade em Portugal

DAB+
A rádio digital irá ter nova oportunidade para vingar em Portugal. Após o fracasso das emissões DAB que foram encerradas em 2011, em breve será iniciado um período de teste e avaliação do sistema DAB+.
As informações ainda são escassas tendo apenas sido adiantado que o teste terá a duração de dois anos e serão utilizados dois multiplexes, um cobrirá a região da grande Lisboa e outro a do grande Porto. Os custos serão suportados pelas rádio difundidas. O anúncio foi feito pelo secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Carlos Abreu Amorim, no âmbito do Dia Mundial da Rádio. Recordo que o blogue TDT em Portugal foi a única entidade que publicamente (aqui no blogue e através de consultas públicas) tem pedido a divulgação do DAB+ junto das rádios e o inicio de emissões em DAB+ à ANACOM e ao Governo. Portugal será um dos últimos países da Europa a iniciar emissões radio no sistema DAB+.

Como tenho dito, a introdução do DAB+ faz todo o sentido por diversos motivos: a falta de frequências do FM para as novas rádio (por exemplo, Observador e CMR), a redução dos custos de operação comparativamente ao FM e diversas vantagens técnicas como a melhoria da qualidade áudio, a possibilidade de difundir imagens e texto em simultâneo com a emissão áudio e a maior robustez do sinal.

A superioridade técnica do DAB+ tem ainda outras importantes vantagens que a qualquer momento poderão ser de grande importância na esfera da proteção civil como o "apagão" do dia 28 de Abril nos recordou. Uma está relacionada com o consumo de energia elétrica que, por ser inferior à do FM, em caso de falha de energia elétrica permite aos emissores emitirem durante mais tempo com recurso a baterias. Outra vantagem do DAB+ é a de permitir a ativação imediata de canais rádio de emergência em que não é necessário o ouvinte sintonizar o canal de emergência, os próprios equipamentos ligam-se sozinhos e sintonizam-se no canal de emergência!
 
A possibilidade de ser utilizada como rede de comunicação de emergência de forma imediata e o menor consumo de energia elétrica por si só justificam o investimento na rádio digital.

Dito isto, a forma como o teste alegadamente irá decorrer suscita-me várias reservas. Não houve qualquer consulta pública prévia. Quem vai instalar a rede? A RTP ou a Altice/MEO? Também,  para avaliar devidamente o sistema seria necessário ativar mais emissores, pelo menos ao longo do litoral que é a zona mais afetada por variação das condições de propagação. E também porque o maior público da rádio são os automobilistas e atualmente praticamente todos os recetores em uso capazes de receber o DAB+ são os auto-rádios, deveriam ser ativados emissores de forma a permitir a receção das emissões DAB+ ao longo de (pelo menos) a autoestrada A1!

Outra preocupação diz respeito às rádios que irão ser difundidas nas emissões teste. Seria um grande erro disponibilizar apenas as rádio públicas. A oferta de rádio deverá ser diferenciadora relativamente ao FM com todas as rádios de âmbito nacional (RDP, RR, RFM, Comercial, TSF, Observador) mas também novos canais de forma a cativar os ouvintes. De outra forma acontecerá como com a TDT no período pré-desligamento, emissores no ar mas praticamente ninguém a utiliza-la. E é feita referencia a dois multiplexes, um em Lisboa e outro no Porto. Terá o Secretário de Estado confundido multiplexes com emissores? Dois multiplexes normalmente pressupõem emissões com oferta de rádios diferentes em cada um deles. 
 
Enfim, há ainda muito por esclarecer mas o anúncio do inicio de emissões teste em DAB+ é uma excelente notícia. Esperemos que o processo seja conduzido de forma séria e competente para que não termine noutro fracasso digital.